O que é ficção científica brasileira?

Uma literatura que imagina o futuro a partir do Brasil

Quando pensamos em ficção científica, muitas imagens vêm imediatamente à nossa cabeça: naves espaciais, robôs, planetas distantes, inteligências artificiais, viagens no tempo e futuros tecnológicos.

Mas onde está o Brasil nessas histórias?

A ficção científica brasileira nasce justamente dessa pergunta — e de muitas outras. Ela é a ficção científica imaginada, escrita e construída a partir das experiências, dos medos, dos sonhos, das contradições e das possibilidades de um país chamado Brasil.

Mais do que simplesmente colocar uma nave espacial sobrevoando São Paulo ou uma inteligência artificial falando português, a ficção científica brasileira pode olhar para o futuro usando referências que fazem parte da nossa história, da nossa cultura e da nossa realidade.

Afinal, se o futuro será vivido por brasileiros, por que ele não poderia também ser imaginado por brasileiros?

Afinal, o que é ficção científica?

Antes de falarmos sobre a ficção científica brasileira, precisamos fazer uma pergunta ainda mais básica: o que é ficção científica?

De forma simples, podemos dizer que a ficção científica é um gênero que utiliza a imaginação especulativa para explorar possibilidades relacionadas à ciência, à tecnologia, à sociedade e ao próprio futuro da humanidade.

Mas talvez a ficção científica não seja apenas uma literatura sobre o futuro.

Ela pode acontecer no passado, no presente ou em mundos completamente imaginários. Pode falar sobre robôs, mas também sobre mudanças climáticas. Pode falar sobre alienígenas, mas também sobre desigualdade social. Pode apresentar tecnologias que ainda não existem para discutir problemas que já existem.

A pergunta central da ficção científica muitas vezes é:

E se…?

E se conseguíssemos viajar para outros planetas?

E se as máquinas se tornassem conscientes?

E se o clima tornasse determinadas regiões do planeta inabitáveis?

E se uma tecnologia mudasse completamente a forma como os seres humanos vivem?

E se o Brasil fosse diferente?

A ficção científica parte de uma hipótese e acompanha suas possíveis consequências.

Por isso, mais do que tentar prever o futuro, ela pode ser uma ferramenta para refletir sobre o presente.

Então, o que torna uma ficção científica brasileira?

A resposta mais simples seria: é a ficção científica produzida por autores brasileiros.

Mas essa definição, embora correta, talvez seja insuficiente.

A ficção científica brasileira também é marcada pelas perguntas que fazemos a partir do lugar onde estamos.

Quando um autor brasileiro imagina o futuro, ele não começa do zero. Ele carrega consigo referências culturais, históricas e sociais. Carrega o português, as cidades, os mitos, as paisagens, as desigualdades, as esperanças e os problemas do país em que vive.

Isso não significa que toda ficção científica brasileira precise acontecer no Brasil.

Um escritor brasileiro pode criar uma história em Marte, em uma estação espacial ou em uma galáxia distante. Ainda assim, sua maneira de imaginar esses mundos pode carregar referências de sua experiência, de sua cultura e de seu olhar sobre a realidade.

Da mesma forma, uma história ambientada no Brasil não se torna automaticamente uma grande obra de ficção científica brasileira apenas por utilizar cenários nacionais.

O que existe é algo mais complexo e mais interessante: diferentes autores imaginando possibilidades a partir de diferentes experiências brasileiras.

Um futuro que também pode falar português

Durante muito tempo, a ficção científica consumida no Brasil esteve fortemente associada à produção estrangeira.

Autores como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, H. G. Wells, Jules Verne, Philip K. Dick e muitos outros ajudaram a construir o imaginário do gênero. No cinema e na televisão, produções norte-americanas e europeias também se tornaram referências para gerações de leitores e espectadores.

Mas o futuro não pertence apenas a uma cultura.

O Brasil também pode imaginar suas próprias cidades futuristas.

Pode criar suas próprias distopias.

Pode imaginar tecnologias desenvolvidas a partir de problemas locais.

Pode pensar em colônias espaciais brasileiras.

Pode imaginar inteligências artificiais treinadas com a nossa cultura.

Pode criar futuros indígenas, amazônicos, periféricos, sertanejos, urbanos, negros e plurais.

Pode misturar tecnologia e folclore.

Pode perguntar como seria o Brasil depois de uma catástrofe climática.

Pode imaginar o que aconteceria se uma nova descoberta científica transformasse completamente a sociedade.

A ficção científica brasileira amplia o nosso imaginário porque nos permite imaginar que nós também fazemos parte do futuro.

As raízes da ficção científica no Brasil

Embora muitas pessoas tenham a impressão de que a ficção científica brasileira é algo recente, suas raízes são antigas.

No século XIX, por exemplo, O Doutor Benignus, de Augusto Emílio Zaluar, publicado em 1875, já apresentava elementos que permitem aproximar a obra da ficção científica.

Também existem textos de Machado de Assis que dialogam com ideias científicas, especulativas e fantásticas de seu tempo, mostrando que a relação entre a literatura brasileira e a imaginação científica possui uma história longa e complexa.

Ao longo do século XX, autores como Jeronymo Monteiro ajudaram a consolidar a presença da ficção científica no país e contribuíram para a formação de leitores e para o desenvolvimento de um mercado dedicado ao gênero.

Décadas depois, obras como Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão, ajudaram a demonstrar a força da ficção especulativa brasileira ao apresentar um futuro profundamente marcado por questões políticas, sociais e ambientais.

Mas essa é apenas uma parte da história.

A ficção científica brasileira não possui uma única origem, uma única estética ou uma única maneira de imaginar o futuro.

Ela foi construída por diferentes gerações de autores, leitores, editoras, revistas, pesquisadores e comunidades.

E continua sendo construída.

A ficção científica brasileira fala sobre o quê?

A resposta é: sobre praticamente tudo.

Assim como a própria ficção científica, a produção brasileira é diversa.

Existem histórias sobre:

  • inteligência artificial;
  • exploração espacial;
  • viagens no tempo;
  • robótica;
  • realidades virtuais;
  • catástrofes ambientais;
  • mudanças climáticas;
  • sociedades futuristas;
  • cidades distópicas;
  • biotecnologia;
  • pós-humanismo;
  • alienígenas;
  • futuros alternativos;
  • tecnologia e desigualdade;
  • folclore e futurismo;
  • Amazônia e meio ambiente;
  • futuros indígenas;
  • cyberpunk;
  • space opera;
  • distopias;
  • utopias.

E, claro, muitas histórias que não se encaixam facilmente em apenas uma categoria.

Essa diversidade é uma das características mais interessantes da ficção científica brasileira contemporânea.

A ficção científica brasileira não é um gênero menor

Por muito tempo, a produção brasileira de ficção científica foi tratada como algo periférico dentro do mercado editorial.

Parte desse problema está relacionada à forte presença da produção estrangeira nas livrarias, nas editoras, no cinema e no imaginário dos leitores.

Muitas pessoas cresceram acreditando que a ficção científica é algo que acontece principalmente em inglês.

Mas isso está mudando.

Cada vez mais autores brasileiros publicam obras de ficção científica. Editoras independentes têm aberto espaço para o gênero. Projetos coletivos, clubes de leitura, antologias, eventos e comunidades ajudam a aproximar leitores e escritores.

A internet também transformou esse cenário.

Hoje é possível encontrar autores brasileiros produzindo cyberpunk, ficção científica climática, space opera, afrofuturismo, amazofuturismo, ficção científica social e muitas outras vertentes.

O desafio agora talvez seja outro: fazer com que mais pessoas saibam que esses livros existem.

Existe um único tipo de ficção científica brasileira?

Definitivamente, não.

E talvez seja justamente isso que torne o gênero tão interessante.

Não existe uma única forma de escrever ficção científica brasileira.

Um autor pode imaginar um futuro sombrio em uma megacidade brasileira. Outro pode escrever sobre astronautas viajando para mundos distantes. Outro pode misturar ciência e mitologia. Outro pode utilizar a Amazônia como ponto de partida para imaginar novos futuros.

Outro pode escrever sobre robôs.

Outro sobre memória.

Outro sobre o fim do mundo.

Outro sobre um mundo melhor.

A ficção científica brasileira é múltipla porque o Brasil também é múltiplo.

Por que precisamos de ficção científica brasileira?

Porque precisamos imaginar o futuro com as nossas próprias referências.

Precisamos de histórias em que o Brasil não seja apenas um cenário exótico ou um país citado de passagem.

Precisamos imaginar como nossas cidades, nossas florestas, nossas tecnologias e nossas comunidades poderiam existir daqui a cinquenta, cem ou quinhentos anos.

Precisamos perguntar quais problemas carregaremos para o futuro.

E quais problemas poderemos finalmente resolver.

A ficção científica brasileira não precisa prever exatamente o que acontecerá.

Ela pode fazer algo ainda mais importante:

ajudar-nos a imaginar aquilo que ainda não aconteceu.

E, quando imaginamos novas possibilidades, também podemos começar a discutir quais futuros desejamos construir — e quais futuros queremos evitar.

O futuro também é nosso

Talvez a pergunta não seja apenas:

O que é ficção científica brasileira?

Talvez devêssemos perguntar:

Que futuro nós, brasileiros, estamos imaginando?

Porque imaginar o futuro também é uma forma de disputar o futuro.

Durante muito tempo, consumimos futuros criados por outras culturas, outras sociedades e outras experiências históricas. E não há nada de errado nisso. A ficção científica estrangeira é fundamental para a história do gênero e continua sendo uma fonte inesgotável de inspiração.

Mas também precisamos olhar para as histórias criadas aqui.

Precisamos descobrir nossos autores.

Ler nossas distopias.

Explorar nossos planetas.

Conhecer nossos futuros.

E imaginar novas possibilidades.

A ficção científica brasileira existe porque o futuro não será vivido apenas por aqueles que sempre tiveram o poder de imaginá-lo.

O futuro também fala português.

E talvez esteja na hora de escutarmos o que a ficção científica brasileira tem a dizer.


Ficção científica não serve apenas para imaginar o futuro. Às vezes, ela serve para perceber que o futuro está sendo construído agora.